Poesia

A Vida em Suspensão

Deixaste
A vida em suspensão,
Pairando no ar.
Disseste:
Até que aconteça algo
Ela assim ficará.

E assim,

Aguardaste
Um amor
Para sorrir,
Um lugar diferente
Para ir,
Um grande festa
Para se divertir,
Uma ocasião especial
Para a roupa nova vestir.

E assim,
Esperaste
Um emprego melhor
Para se dedicar,
Ouvir um pedido
Para ajudar,
Um oportunidade de ouro
Para aproveitar,
Pessoas perfeitas
Para amar.

E assim,
Não viste:
Os dias se foram,
Tudo passou.
Nem percebeste
Quando as linhas arrebentaram
E a vida acabou.

Poesia

Um aprendizado com meu pai sobre o valor do trabalho

\”Era 1000 vezes melhor quando eu estava trabalhando. 1000 vezes melhor\”.

Autor dessa frase é meu pai, 70 anos. Ele trabalhou a vida inteira, e está \”parado\” há cerca de 5 anos.

Bem, na verdade, ele está aposentado há 20 anos. Mas mesmo aposentado, ele continuou trabalhando por mais 15. Só parou mesmo quando foi dispensado pelo seu empregador.

O trabalho dele? Lavador de caminhão. Subindo. Agachando. Graxa. Cheiro de óleo. Mãos e braços sempre arranhados. Roupas remendadas.Comida esquentada. Trabalho que agravou seu problema auditivo. Suas dores na coluna.

Trabalhou debaixo de chuva, debaixo de sol. Segunda a sábado. Muitas férias vendidas.
Muitas vezes ele foi humilhado. Por clientes. Por colegas. Pelos próprios empregadores.

Mas ele plantou uma árvore no fundo do seu local de trabalho. Ela ainda está lá.
E ele tratou as pessoas bem. Fez clientes de amigos. Fez brincadeiras para colher sorrisos.
E durante todos os anos (longos) que trabalhou, nunca chegou em casa reclamando. Dizendo que estava estressado. Que não aguentava mais.

Em nenhuma manhã desses anos (longos), fez hora na cama. Fechou a cara. Saiu de casa batendo o pé.

Sabe, meu pai é um cara esperto. Criativo. Inventor. Engenheiro. Sabe das coisas. E foi nesse trabalho \”pesado\” que ele serviu as pessoas, serviu a Deus, serviu a família. Nunca nos deixou faltar nada. E isso é o que um trabalho digno faz!

E esse valor ao trabalho, ele sempre passou para mim e para os meus irmãos. Algo que buscamos levar com a gente. Mas que muitas vezes esquecemos.

Meu pai tem orgulho dos filhos. Sempre que pode, ele diz isso. Tem orgulho dos 4 filhos terem feito faculdade. De dois filhos já terem casado, terem suas casas, suas famílias. De duas filhas terem atravessado o oceano para realizar um sonho, conhecer outro país, estudar.

E como eu sempre digo: ele está muito enganado. Somos nós quem temos orgulho dele.
Hoje não é aniversário de papai (tbm conhecido como vô pithico).

É que ele me disse aquela frase (do começo do texto) ontem pela manhã. E ela ficou por aqui, recuando no meu coração, me fazendo pensar, refletir, considerar…e agradecer.

\”O que tiveres que fazer, que faça brilhar\” – pai

\”Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças\” – Provérbios 9.10


(reflexão de 11/12/2015)

Poesia

Foi Ontem

 

Se fecho os olhos, foi ontem.

Ontem que meu pai contou histórias, cantigas de ninar, deitados na cama. E minha mãe me deu beijo de boa noite e ouviu de mim “eu te amo”.

Foi ontem que eu corri na rua, passei a tarde no quintal da vizinha e voltei chorando para casa por causa de uma briga. Foi ontem que a amiga veio até o portão ficar de bem.

Foi ontem que coloquei qualquer roupa comprada na feira, e voltei para casa no final da tarde, imunda e com os joelhos ralados. E minha mãe veio lavar meu cabelo, porque eu nunca aprendo.

Foi ontem que meu irmão me bateu. Também foi ontem que tivemos nossas grandes aventuras. Soltamos pipa em cima da casa. Quer dizer, ele soltou e eu fiquei cuidando do carretel. Tomamos banho num tambor de 200 litros, um de cada vez, porque não cabia os dois aos mesmo tempo. Foi ontem que ele deixou eu descer a rua no carrinho de rolimã.

Foi ontem que tentei seguí-lo em alguma outra aventura, e ele me mandou para casa, só porque eu era pequena e menina. Foi ontem que ele meu deu sustos de terror e me apavorou dizendo que eu era adotada. Foi ontem também que o outro irmão, o mais velho, me levou até o circo e me deu algodão-doce. E me comprou um patins. E trouxe bombons chiques da empresa, e envelopes para eu brincar.

Foi ontem que eu dormi na sala e acordei na cama. Ontem que tive pesadelo e fui para a cama dos pais e eles abriram espaço para mim. Ontem que estava chovendo e a mãe deixou eu ir para a rua me molhar. Ontem que estava quente e a mãe deixou eu tomar banho de mangueira.

Foi ontem que troquei papéis de carta, montei casa de barbie com caixinhas e coisas improvisadas, fiz roupinhas de boneca e pedi pra mãe arroz e feijão para colocar nas panelinhas. Foi ontem que eu tive muitas filhas, e até fiz aniversários delas. Foi ontem que chorei muito pelo braço da filha Daniela ter se soltado e suspirei de alivio quando minha mãe me salvou, encaixando o bracinho no lugar.

Foi ontem que ganhei folhas brancas, lápis de cor, carimbos e bichinhos de pelúcia. Que escolhi um pintinho colorido na feira e chorei sua morte depois de 4 dias. Foi ontem que fui levada à Cidade das Crianças e ao Zoológico. Foi ontem que chorei por ter ficado doente e ter perdido o passeio ao Corpo de Bombeiros.

Foi ontem que tomei leite com xarope de groselha na casa do pastor. Foi ontem que durante o culto eu e os amigos quebramos a pia do banheiro. E enchemos a boca com água, à espera de quem riria primeiro. Foi ontem que decorei “No princípio criou Deus os céus e a terra”.

Foi ontem que a mãe trouxe uma bebêzinha para casa. E ai, eu tinha uma boneca de verdade para brincar. E era legal, porque a amiga da frente também tinha uma assim. Foi ontem que deixei a bonequinha cair no chão, e não contei para a mãe com medo de levar bronca. Mas orei para Deus não deixar ela morrer.

Também foi ontem que eu orei para que fizesse sol no dia do passeio, que a mãe e o pai voltassem logo para casa, para que a gatinha que sumiu aparecesse, para que o Urso Branco com Coração Vermelho que eu perdi fosse encontrado.

Foi ontem que eu amava de todo o coração a professora e a chamava de tia. Foi ontem que tinha tantos amigos, e todos eram os melhores do mundo. Foi ontem que eu ignorava os erros dos pais, e acreditava em todas as explicações que me davam. Foi ontem que fui chamada de pombinha branca pelo vô e a vózinha me levou para tomar guaraná.

Foi ontem que vesti um uniforme azul e fiquei radiante. Que dividi o lanche na hora do recreio com um amigo que já partiu. Que enviei recadinhos escondidos enquanto a lição era explicada. Que pedi permissão para ir ao banheiro. Que cantei Aquarela. Que usei canetinhas coloridas e escrevi no topo da folha se o tempo estava chuvoso, com sol ou nublado.

Foi ontem que todas as coisas novas me encheram de animação (e nunca medo). Que o Natal teve um cheiro diferente e uma magia inexplicável. Que eu fiquei brava por apenas 30 segundos. Que eu passei o resto do dia contente, sem motivo algum.

Foi ontem que os meus piores medos eram a mãe não deixar eu ir pra rua brincar, precisar tomar bezetacil, não ganhar a boneca que falava e o mundo acabar.

Foi ontem que todas as pessoas eram do bem. Que eu podia sorrir para elas e receber um sorriso de volta. Que eu podia confiar. Que eu podia dizer o que pensava. Que eu podia conversar sem interesse de parecer inteligente ou de ser aceita.

Foi ontem que eu não pensava no futuro e nem no passado. Que eu não tinha ansiedades nem arrependimentos. Que eu não tinha frustrações e nem decepções.

Foi ontem que tudo se resolvia no aconchego do colo de pai e mãe. Que o mundo não me assustava. Que o mundo que eu tinha era o suficiente. Foi ontem que eu podia sonhar, imaginar e acreditar. E ninguém me diria que as coisas não são tão simples assim.

Tudo isso foi ontem.

Meu Deus, como ontem foi bom!

 
Texto escrito quando faltava um 1 mês para eu completar 30 anos