Poesia

Quer uma beijoca?



Vi essa tirinha do Bichinhos de Jardim e pensei no meu sobrinho Nicholas, de 2 anos. Ele adora beijar! Ele beija quem é da família (principalmente o primo Biel), os amiguinhos (mesmo que tenha acabado de conhecer), seus brinquedos e se deixar, beija até o cachorro.

Deve ser típico de criança da idade dele, mas como eu acho lindo vê-lo se levantando nas pontinhas do pé para beijar seja lá quem for!

Essa tirinha também me fez pensar no outo lado. Em quantas pessoas estão com uma vontade imensa de receber ou dar um carinho, mas que se contém. Não sei se é porque são tímidas ou porque se acham fortes.

Mas a questão é que todo mundo precisa de um afago, uma palavra amiga, um abraço, um olhar gentil, um “bom dia”.

Não tem graça nenhuma estarmos no meio de muita gente, e ainda assim, se sentir invisível. Estar numa roda animada de conversa, mas tristes porque ninguém nos olha nos olhos.

Assumir nossa carência e que precisamos do outro, não é nenhum problema. Afinal, fomos feitos para estarmos juntos e como diz o poeta-músico “É impossível ser feliz sozinho” (Tom Jobim).

Então, o convite de hoje é para que você saia por aí dando beijocas em quem você quer bem.

E naqueles dias em que se sentir tão só, não tenha receio de assumir sua carência. Sem vergonha alguma, peça colo e cafuné. Certeza que haverá pessoas por perto que te acolherão com muito carinho.

*Texto meu originalmente publicado em Mais Viver Unimed Paulistana, em 4/set/2013

Poesia

Não acomodar com o que incomoda


Há muito anos atrás, numa conversa com meu irmão mais velho, ele me disse como o ser humano era um ser totalmente adaptável. Engraçado como algumas conversas nos marcam e ficam guardadas na memória, né? Acho que essa ficou porque, como tenho muitas dificuldades de lidar com mudanças, frequentemente preciso recorrer a isso para me lembrar de que é possível sim enfrentar e viver o novo, e de que há grandes chances de que no fim eu me adapte e fique muito bem.

Pois de fato, podemos nos adaptar a uma nova cidade, a uma nova rotina, a uma nova dieta, a um novo trabalho ou cargo. Algumas outras situações podem até levar mais tempo na fase de adaptação, como o inicio do casamento ou da maternidade, mas com uma dose de paciência, persistência e humor, quando menos esperamos, já estamos tirando tudo de letra. E é como se sempre estivéssemos nessa situação e nem pudéssemos mais imaginar uma outra vida.

No entanto, o “ser adaptável” pode também ser algo ruim. É quando nos adaptamos ao que não nos faz feliz, que prejudica a nossa saúde, que nos distancia das pessoas a quem amamos ou de quem nós somos. E tudo porque passamos a acreditar que a “vida é assim mesmo e não tem outro jeito”.

E então, nesse momento, é preciso escolher o outro lado: Não acomodar com o que incomoda. Essa frase é da música “Criado Mudo”, do Teatro Mágico. Gosto tanto dessa mensagem que até tenho uma camiseta com ela. Me faz pensar em quantas coisas nos adaptamos, nos acomodamos ou nos acostumamos (verbos que têm significados muito próximos), mas que não deveríamos.

O que me faz também lembrar do texto “Eu sei, mas não devia” de Marina Colasanti, que me foi apresentado por meu outro irmão. Um texto cheio de verdade e que chacoalha nossa alma, nos fazendo pensar em quantos absurdos temos nos acostumado, enquanto a vida se esvai.

Sempre é tempo de pensar nas coisas a que nos adaptamos, mas que não deveríamos. E nas coisas que valem a pena se adaptar, para o nosso próprio bem!

O texto pode ser lido na íntegra aqui ou visto no vídeo abaixo.

*Texto meu também publicado em Mais Viver Unimed Paulistana

Poesia

Flores aos Vivos

Houve um tempo em que para chegar ao trabalho eu passava em frente ao Cemitério da Consolação. Um cemitério de mais de 150 anos, e que, inclusive, é considerado um marco turístico de São Paulo. Por perto, assim como em tantos outros cemitérios, diversas barraquinhas vendiam flores. Faz parte de muitos rituais de despedida a entrega de flores aos mortos e por isso, é fácil entender a escolha desse ponto estratégico de vendas.

Entre tantas barraquinhas, uma delas me chamou a atenção. Nela havia uma placa dizendo: Dê flores aos vivos.

Claro que por trás dela há um interesse comercial. Mas vejo também um conselho. Por que deixar um presente tão lindo como as flores, que mostram esperança, carinho e amor, para ocasiões tão raras ou somente para despedidas?

Sabe, não vejo problema algum em levar flores a alguém querido que partiu. No entanto, inevitavelmente penso: e em vida, quantos arranjos de flores será que essa pessoa recebeu?

Meus pensamentos não se encerram por aqui. As flores são, no caso, apenas a ponta do iceberg. Em um velório, enquanto vejo as lágrimas e ouço os cochichos, fico pensando: Mas e em vida, quantas declarações de amor será que ele ouviu? Quantos pedidos de desculpa? Quantas dessas pessoas que estão aqui nesse momento ele não via há anos?

Ver uma frase tão simples me fez pensar nessas muitas coisas que deixamos para fazer depois, e quando vemos, já não há mais tempo ou sentido.

Muitas pessoas estão levando flores aos túmulos frios, escrevendo cartas que não serão lidas, dizendo o que sentem para pessoas que já partiram. E eu não quero ser uma delas.

Que a beleza das flores seja um presente em dias comuns. Que qualquer momento seja o momento certo para abrir o coração e dizer o que sentimos. E que ao nos despedir de alguém possamos ter o conforto de saber que desfrutamos da sua companhia para valer.

Olhei no relógio e o dia já se foi
E eu não disse te amo pra ninguém
Até tive chances mas deixei pra depois…
(Tempo para amar – Thiago Grulha)

*Texto meu também publicado em Mais Viver Unimed Paulistana