Poesia

Foi Ontem

 

Se fecho os olhos, foi ontem.

Ontem que meu pai contou histórias, cantigas de ninar, deitados na cama. E minha mãe me deu beijo de boa noite e ouviu de mim “eu te amo”.

Foi ontem que eu corri na rua, passei a tarde no quintal da vizinha e voltei chorando para casa por causa de uma briga. Foi ontem que a amiga veio até o portão ficar de bem.

Foi ontem que coloquei qualquer roupa comprada na feira, e voltei para casa no final da tarde, imunda e com os joelhos ralados. E minha mãe veio lavar meu cabelo, porque eu nunca aprendo.

Foi ontem que meu irmão me bateu. Também foi ontem que tivemos nossas grandes aventuras. Soltamos pipa em cima da casa. Quer dizer, ele soltou e eu fiquei cuidando do carretel. Tomamos banho num tambor de 200 litros, um de cada vez, porque não cabia os dois aos mesmo tempo. Foi ontem que ele deixou eu descer a rua no carrinho de rolimã.

Foi ontem que tentei seguí-lo em alguma outra aventura, e ele me mandou para casa, só porque eu era pequena e menina. Foi ontem que ele meu deu sustos de terror e me apavorou dizendo que eu era adotada. Foi ontem também que o outro irmão, o mais velho, me levou até o circo e me deu algodão-doce. E me comprou um patins. E trouxe bombons chiques da empresa, e envelopes para eu brincar.

Foi ontem que eu dormi na sala e acordei na cama. Ontem que tive pesadelo e fui para a cama dos pais e eles abriram espaço para mim. Ontem que estava chovendo e a mãe deixou eu ir para a rua me molhar. Ontem que estava quente e a mãe deixou eu tomar banho de mangueira.

Foi ontem que troquei papéis de carta, montei casa de barbie com caixinhas e coisas improvisadas, fiz roupinhas de boneca e pedi pra mãe arroz e feijão para colocar nas panelinhas. Foi ontem que eu tive muitas filhas, e até fiz aniversários delas. Foi ontem que chorei muito pelo braço da filha Daniela ter se soltado e suspirei de alivio quando minha mãe me salvou, encaixando o bracinho no lugar.

Foi ontem que ganhei folhas brancas, lápis de cor, carimbos e bichinhos de pelúcia. Que escolhi um pintinho colorido na feira e chorei sua morte depois de 4 dias. Foi ontem que fui levada à Cidade das Crianças e ao Zoológico. Foi ontem que chorei por ter ficado doente e ter perdido o passeio ao Corpo de Bombeiros.

Foi ontem que tomei leite com xarope de groselha na casa do pastor. Foi ontem que durante o culto eu e os amigos quebramos a pia do banheiro. E enchemos a boca com água, à espera de quem riria primeiro. Foi ontem que decorei “No princípio criou Deus os céus e a terra”.

Foi ontem que a mãe trouxe uma bebêzinha para casa. E ai, eu tinha uma boneca de verdade para brincar. E era legal, porque a amiga da frente também tinha uma assim. Foi ontem que deixei a bonequinha cair no chão, e não contei para a mãe com medo de levar bronca. Mas orei para Deus não deixar ela morrer.

Também foi ontem que eu orei para que fizesse sol no dia do passeio, que a mãe e o pai voltassem logo para casa, para que a gatinha que sumiu aparecesse, para que o Urso Branco com Coração Vermelho que eu perdi fosse encontrado.

Foi ontem que eu amava de todo o coração a professora e a chamava de tia. Foi ontem que tinha tantos amigos, e todos eram os melhores do mundo. Foi ontem que eu ignorava os erros dos pais, e acreditava em todas as explicações que me davam. Foi ontem que fui chamada de pombinha branca pelo vô e a vózinha me levou para tomar guaraná.

Foi ontem que vesti um uniforme azul e fiquei radiante. Que dividi o lanche na hora do recreio com um amigo que já partiu. Que enviei recadinhos escondidos enquanto a lição era explicada. Que pedi permissão para ir ao banheiro. Que cantei Aquarela. Que usei canetinhas coloridas e escrevi no topo da folha se o tempo estava chuvoso, com sol ou nublado.

Foi ontem que todas as coisas novas me encheram de animação (e nunca medo). Que o Natal teve um cheiro diferente e uma magia inexplicável. Que eu fiquei brava por apenas 30 segundos. Que eu passei o resto do dia contente, sem motivo algum.

Foi ontem que os meus piores medos eram a mãe não deixar eu ir pra rua brincar, precisar tomar bezetacil, não ganhar a boneca que falava e o mundo acabar.

Foi ontem que todas as pessoas eram do bem. Que eu podia sorrir para elas e receber um sorriso de volta. Que eu podia confiar. Que eu podia dizer o que pensava. Que eu podia conversar sem interesse de parecer inteligente ou de ser aceita.

Foi ontem que eu não pensava no futuro e nem no passado. Que eu não tinha ansiedades nem arrependimentos. Que eu não tinha frustrações e nem decepções.

Foi ontem que tudo se resolvia no aconchego do colo de pai e mãe. Que o mundo não me assustava. Que o mundo que eu tinha era o suficiente. Foi ontem que eu podia sonhar, imaginar e acreditar. E ninguém me diria que as coisas não são tão simples assim.

Tudo isso foi ontem.

Meu Deus, como ontem foi bom!

 
Texto escrito quando faltava um 1 mês para eu completar 30 anos
Poesia

Os momentos que eu registrei

Fotografias nas mãos.
Algumas nítidas, outras já desbotadas pelo tempo.
Em todas, lembranças.

Olha aqui! Todos rindo, espalhados, bagunçados, distraídos.
Olha essa! Todos em seus devidos lugares, pose forçada
(quem sabe, a melhor que puderam fazer!).

Uma por uma, eu as passo entre os dedos.
Com carinho.
Com cuidado.

Às vezes, sem nem perceber, lágrimas caem, em profunda saudade.
Outras vezes, sem nem perceber, ouço minha risada alta.

E num piscar de olhos,
Me vejo em outro tempo.
Em outro lugar.
Em boa companhia.

Volto à decoração antiga da casa
E ao quintal de terra que não existe mais.
Volto aos lugares que tanto gostei de conhecer,
E aos lugares que foram meu refúgio por um tempo.

Volto no tempo!
Me vejo novamente criança, com uniforme da escola
Ou com um vestidinho branco, rodado, cheio de laços.
Volto a ver meus irmãos adolescentes, com cara de tédio.
Volto a ver minha irmã bebê, chorando de cólica, no colo da minha mãe
(ou será que ela está chorando por que eu a derrubei sem querer?)

Vejo a turma de amigos, todos bem juntos,
Numa época que era tão fácil ser feliz e sonhar.

Vejo a professora que eu admirava e que uma vez me fez sentar no fundo da sala,
Vejo o canto do pátio onde eu sentava, muitas vezes esperando a vida começar.

Vejo minha gatinha Sophia deitada na escada,
A cachorra Pureza pulando no sofá,
O miquinho no ombro do meu irmão.

Vejo a vó na porta de casa, lá em Minas.
Um monte de primos sonolentos, mas bagunçando, em festa de natal.
E vejo pessoas queridas que já se foram
(ai que vontade de abraçar quem está nessa foto!).

Com o coração aquecido,
Quanta coisa revivi!
Olhei nos olhos de quem hoje está distante.
Ouvi a canção Aquarela,
Senti areia sob os pés,
Me acalmei no rio,
Suspirei por causa do primeiro amor.

Fotografias têm mesmo esse efeito.
Permite que eu segure em minhas mãos
Momentos que já estavam registrados na memória,
Guardados no coração.

Ah, como eu amo ver fotografias!
Seja dos momentos únicos, tão especiais, marcantes.
O aniversário, a viagem,
A formatura, o casamento,
O bebê que chegou.

Mas, e as fotos daqueles momentos tão corriqueiros
Mãe fazendo o almoço, pai cuidando da horta?
Quero fotografá-los também,
Pois lá no fundo eu sei,
Que esses serão os momentos que mais sentirei falta.
E só então, perceberei como eram também momentos únicos, especiais e marcantes,
Dignos de muitas fotografias.

E enfim, como um segredo, guardo minhas fotografias,
Com o desejo de encontrar novas paisagens, ângulos e
Momentos que eu possa segurar com todas as minhas forças…

*Texto adaptado de outro texto meu, publicado em Mais Viver Unimed Paulistana

Poesia

De onde vem esse gotejar?


Ouço um gotejar. 
Às vezes constante, às vezes discreto.

Será que vem de algum rio, 
seguindo seu caminho,
escorrendo entre as pedras?

Será que vem das copas das árvores,
gotas preguiçosas,
que sobraram da pesada chuva? 

Ou será que são aquelas que vem de dentro?
Se dos olhos, da alma ou do coração, 
já não saberia dizer.

Uma por uma, eu as conto.
Mas já perdi a conta!

E uma por uma, elas me contam.
Ora sobre a dor (de quem magoado foi).
Ora uma tristeza (de quem para trás ficou). 
Ora uma decepção (de quem cegamente confiou).

Ou mesmo, quem sabe, me contam
uma história de amor (daquelas que um dia sonhou).

Mas às vezes, elas são só silêncio.
Apenas ouço o seu gotejar. 

Talvez tenham medo 
de se revelar.
E ainda mais medo de não encontrar 
quem as possa enxugar.