Poesia

As luzes

E a sua parte preferida da casa era o quintal. E tudo por causa das luzes. Ela mesmo tinha escolhido e comprado o cordel de luzes. Coloridas, claro. E também tinha sido ela que as pendurou, enfrentando todo o medo de altura e de que pudesse cair da escada improvisada.

Era à noite que seus olhos brilhavam, junto com as luzes. Olhando pra cima, ela dançava, ria alto, era feliz.

Até que com o tempo (e a vida) as lâmpadas, uma a uma, foram se apagando. Mas ela não se deu conta no início. Talvez, se tivesse percebido logo quando a primeira se apagou, as coisas teriam sido diferentes. Quem poderia saber?

Começou a notar que cada vez que engolia o choro, uma luz se apagava. Que quando abria o coração, mas ninguém entrava, outra luz faiscava e apagava. Que cada vez que dizia o que sentia, mas não era ouvida, outra luz que se escurecia. Que quando dizia que estava com saudade, mas não havia o encontro, mais uma. Cada vez que contava uma tristeza e não recebia um abraço, mais uma se apagava. Quando recebia uma acusação sem sentido, outra. Quando se explicava e ainda assim era incompreendida, mais uma. Quando ouvia palavras mal(ditas), outra. Quando acreditava e se enganava, mais uma. Quando deixava de acreditar, outra. Ah, se ela tivesse se lembrado de que manter essas luzes acesas dependiam unicamente dela.

Uma a uma, todas se apagando… até que não havia mais luz. Sem forças, nem as tirou pra guardar. Apenas entrou em casa, e fechou as portas.

Mas foi então que ouviu as batidas. Relutante, não abriu. Esperou que fosse embora, mas como sentia ainda aquela presença, acabou não resistindo. Ao abrir as portas, alguém a segurou pela mão e a levou para fora.

– Olhe para o céu e veja as minhas luzes. Todas essas estrelas foi eu mesmo quem fiz, elas são para enfeitar a sua noite. E continuarão brilhando, não importa o que aconteça. Por isso, por mais difícil e dolorido que tenha sido seu dia, lembre-se de olhar para o céu. E olhe para o seu coração. Dele deve continuar saindo luz para brilhar a vida de quem coloquei em seu caminho. Não o feche, mesmo quando achar ou parecer que amar não compensa. O amor sempre será a melhor escolha.

Sem deixar de olhar pra cima, ela dançou ainda melhor, riu ainda mais alto e foi verdadeiramente feliz. Ela entendeu que há luzes que não podem se apagar.

Poesia

A conversa mais importante

O dia começa e antes que eu sinta o sol, sinto o peso de todos os compromissos que me esperam.

O dia segue nessa correria, e me acompanha a certeza de que o tempo nunca será o bastante para tudo que preciso ou quero fazer.

Então, mais um dia vai chegando ao fim. Enquanto aguardo o descanso, dou conta das poucas e apressadas palavras que trocamos ao longo do dia. Algumas delas foram até meio inconscientes, só por hábito.

Percebo, envergonhada, que já não sei quando foi a última vez que tivemos uma conversa de verdade.

Aquela conversa em que, tranquilamente, conto sobre meu dia, o que me fez sorrir, o que me entristeceu ou entristeceu a ti. Sobre as pessoas que fizeram parte desse dia, e como desejo que cuide delas.

Aquela conversa em que, sem reservas, eu falo sobre todas as coisas que estão aqui dentro: anseios, medos, preocupações, dúvidas. Sobre os sonhos, dos simples aos que insisto em chamar de impossíveis.

Como uma fonte, as palavras jorram, se atropelam, se bagunçam, mas sei que uma a uma são compreendidas. Até aquelas que não consegui dizer.

Ah, como é maravilhoso saber que a tudo isso, você ouve. Entre milhões de pessoas, no meio de tantas outras conversas, sei que nesse momento, você ouve a mim!

E então, com tanta graça e amor, responde. A voz mais doce e suave que conheço. A mais forte e poderosa que temo.

Me responde com exortações, promessas, testemunhos lidos da Sua Palavra. Às vezes, me responde trazendo à memória uma canção.

Há vezes também que parece nada responder, apenas há​ o silêncio aquecendo meu coração. Mas ainda assim, é um sussurro que fala ao mais profundo de mim, de uma forma que a voz mais alta jamais poderia.

Ah, como preciso de nossas conversas.

São nessas conversas que eu me aquieto. Que as ansiedades fogem. Que o medo desaparece. Que as preocupações se provam​ desnecessárias.

É quando eu lembro por onde já caminhamos. Pela presença nos momentos difíceis, aqueles que pensei que não suportaria. Pelas providências que tanto precisava e por muitas que nem imaginava. Pelas lágrimas enxugadas.

São nessas conversas que eu vejo um pouco mais além. Que olho para o que é eterno. Para as coisas que ainda virão. Pelas promessas que se cumprirão. Pela certeza de que haverá um tempo em que ao conversarmos, oh, Jesus, será face a face.

Ah, meu amigo. Me perdoe porque hoje eu escolhi tantas outras coisas, e não a melhor parte. Por ter procurado tantas pessoas para conversar, e não antes a Ti. Por ter demorado tanto a me sentar aos teus pés e te ouvir falar. Por ter demorado a inclinar minha cabeça em teu peito.

Ah, meu amigo Jesus, obrigada porque agora eu estou aqui. E Tu estás aqui. E esse é o momento de termos nossa conversa.

Poesia

Para 2017, confiança

O ano começou, e uma lista considerei fazer.
Objetivos, desejos, aonde chegar.
Mas logo pensei:
Por que novamente correr o risco de me frustrar?
Qual o sentido de pensar no amanhã se nem o hoje posso controlar?

Por alguns dias, nessa angustia fiquei.
Desanimada, abatida, sem norte, sem direção.
Foi então que ouvi uma voz tranquila, falando ao meu coração:
“Por que simplesmente não me deixa te surpreender?
Confie em mim, eu sei o que estou a fazer! ”

Foi assim que decidi nenhuma lista escrever,
O ano de 2017 a Deus entreguei.
Sua vontade (boa, perfeita e agradável)
É melhor que qualquer plano que eu possa ter.
Em plena rendição, confiarei em seu querer.