Poesia

Pai, será que você se lembra?

Pai, será que você se lembra?

Porque eu sim.

Lembro a primeira vez que você ouviu sobre minha existência. Você se sentiu confuso, com medo, e um pouco apavorado. Mas também sentiu alegria. E sentiu um pouquinho do amor que logo viraria um montão.

Eu também me lembro quando você me viu pela primeira vez. Era só uma imagem escura. Mas você ficou lá, revirando a imagem, tentando me encontrar e suspirando aliviado ao reconhecer minhas mãozinhas.

E então, nos conhecemos. Você estava com os olhos molhados. E sorria. E olhou para aquela guerreira, que desde sempre foi tudo pra mim, com tanto amor e devoção, que eu soube que poderia confiar em você. 

Confesso que naqueles primeiros dias e semanas, eu não me importava muito com você. Mas logo comecei a procurar, de olhos arregalados, por aquele que tinha um sorriso bobo. E que tinha um colo desajeitado, mas sempre quente e protetor.

E com o tempo fui entendendo o seu papel na minha história. 

Talvez o primeiro tenha sido o papel de anjo. Você me observando enquanto eu dormia. Você me ninando, cantando baixinho para eu me acalmar. Você sempre por perto, mesmo quando não sabia muito bem o que fazer comigo. Eu me lembro, sabia?

Também me lembro das brincadeiras no chão. E das brincadeiras no ar, mãezinha sempre dizendo: cuidado. 

Lembro da cabana improvisada com lençol, do banho de mangueira no quintal, de brincar de dirigir seu carro, de fazer muito barulho, mesmo quando estava na hora de fazer silêncio. Você sendo rei, sendo cavalheiro, sendo palhaço, sendo dragão, sendo urso. Sendo meu amigo.

Lembro das histórias antes de dormir. As de fadas, de bicho falante, de festa no céu.  E as de bruxas e bicho papão, mas essas baixinho, sem mãezinha ouvir. 

Lembro quando você me levava até o bar da esquina e comprava uma tubaína para dividirmos. E eu tentando me equilibrar no balcão. E também lembro de você me levando até o parquinho e me trazendo de volta para casa, às vezes de joelhos ralados, mas sempre feliz.

Lembro quando você amarrava meus calçados. E quando abria o refrigerante. E quando no calor, sentados na escada, descascava cana para mim. E também quando descascava laranja, me dando a partezinha de cima, a minha preferida.

Lembro de você me dando pastel antes do almoço e sorvete quando o tempo estava frio. Talvez tenha sido assim que descobri seu papel de cúmplice e de que a vida não precisa ser levada tão a sério.

Lembro da sua impaciência com minhas birras, e da sua paciência quando a birra era com mãe. 

Lembro das broncas, terríveis e duras. E lembro do coração mole, que se derretia quando eu corria para um abraço, com um pedido de desculpa ou apenas cara de choro.

Lembro de como foi divertido convencer mãezinha que dávamos conta de um cachorro. E de você me levando eufórica pelas mãos, e depois, me deixando livre pra escolher meu novo amiguinho.

E sabe esta cena? Você me levando pelas mãos e no momento certo me deixando seguir e decidir 
meu caminho? Ah, quantas vezes ela se repetiu! 

Lembro também das mãos segurando levemente a bicicleta, mesmo quando eu dizia que estava com medo. E das mãos firmes me segurando ao entrar no mar, mesmo quando eu dizia que era seguro.

Lembro da ajuda em matemática e você indo consultar, meio sem graça, qual a capital de algum estado. Lembro de você me explicando (ou inventando) porque o céu é azul, porque eu não podia alcançar as estrelas, porque eu precisava dizer adeus a vózinha.

E mais tarde (como o tempo passa rápido!), você me explicando sobre relacionamentos, sobre política, sobre a vida, sobre o trabalho, sobre a fé.

Sempre exercendo tão bem esse papel de professor, misturado ao de conselheiro. Alguém que sabe das coisas, mas que sente prazer em ver eu descobrindo por mim mesma.

Ah, paizinho, de quanta coisa eu me lembro!

Lembro do seu orgulho com minhas conquistas. Da sua preocupação com minhas tristezas. Da sua compreensão com minhas escolhas. Da sua angústia com meus erros. 

Lembro do seu incentivo e apoio. Da sua alegria, pura e simples. Do seu humor. E do seu amor, tão grande. 

E continuarei lembrando. 

E quando você não mais lembrar, não se preocupe. Bem pertinho dos seus ouvidos e segurando suas mãos, contarei a você minhas lembranças. E de como sou grata a Deus por você exercer o papel que mais preciso: a de meu pai.

Ps.: Muitas das lembranças aqui compartilhadas são reais, são minhas. Meu paizinho, de fato, preencheu a minha infância de bons momentos, e hoje, eu já adulta, continua sendo assim. Ele continua preenchendo minha vida de ensino, de exemplo, de cuidado, de amor. Eu só tenho a agradecer ao Pai Eterno pelo pai daqui ❤

Poesia

Ação de Graças



Dia de agradecer a Deus por tantas coisas boas recebidas,
Por todas aquelas que nem percebi.
E por aquelas que poderão vir!

Dia de agradecer pelo amor provado,
Pela graça que transborda,
Pela misericórdia a cada manhã.

Pela força quando o caminho é difícil,
Pela razão de seguir,
Pela certeza de Sua companhia.

Pelos sonhos já realizados,
E por aqueles que me fazem sorrir,
Só pela esperança de um dia vivê-los. 

Também é dia de agradecer às pessoas que fazem parte da minha vida.
Que estão presentes no dia a dia,
Ou aquelas que no dia em que estão por perto, é um grande presente.

Agradecer pela palavra amiga,
Da bronca com amor,
Do conselho arriscado.

Agradecer pelo abraço,
Pelo olhar de cumplicidade,
E por me ouvir sem pressa.

Agradecer pelas histórias que já vivemos,
Por aquelas que imaginamos,
E por aquelas que nos surpreenderão. 

Agradecer pela amizade e carinho, 
Desde sempre e
Até nos dias que eu não mereci.

Que hoje eu agradeça a Deus,
A família, aos amigos,
À Vida. 

Que hoje eu seja motivo
De gratidão para alguém.

E que mesmo no dia triste,
Bagunçado,
Quase sem sentido,
Eu encontre motivos para agradecer.

E que mais do que um dia,
Eu tenha uma vida inteira de ação de graças!


Texto inspirado nesse outro texto meu, publicado em Mais Viver Unimed Paulistana.

Poesia

Entre Irmãos

Uma das implicâncias que tenho com meu irmão mais velho e sua esposa é sobre a decisão deles de terem um único filho. E sem medo de ser chata, repito: gente, meu sobrinho merece ter um irmão!

Ok, ok, sei que não deveria me intrometer nisso. Afinal, são eles que bancam as despesas e têm a responsabilidade de criar e educar um filho nesse “mundão”. Mas vez ou outra, mesmo que por brincadeira, volto no assunto. Quem sabe eles mudam de ideia e o Gabriel ganha um irmão, não é?

O principal motivo de eu querer tanto que meu sobrinho tenha um irmão, é justamente porque eu sou apaixonada pelos meus. Eles são presentes que sempre encherá meu coração de gratidão a Deus!

E olha que meus pais capricharam para valer! Dois meninos e duas meninas, e sem modéstia, todos lindos, inteligentes, responsáveis, gentis e… a lista é longa. Sou “irmã-coruja” assumida.

Temos muitas semelhanças entre nós, tanto na aparência quanto na personalidade, mas cada um tem seu jeito e seus dramas e isso faz com que tudo seja mais equilibrado e divertido na família.

Quando morávamos sob o mesmo teto havia muitas brigas, pirraças, manhas e até ameaças (vou contar para a mãe!). Tinha a disputa por ser o preferido, ter o melhor quarto, escolher o canal de televisão ou sentar na janela.

Mas havia também a cumplicidade, o companheirismo e a amizade, o que continuou à medida que fomos “crescendo” e seguindo pela vida.

Mesmo na fase em que cada um ficava no seu canto, o fato de saber que estávamos na mesma casa era reconfortante para mim. E quando chegou o momento dos mais velhos se casarem e terem suas próprias famílias, pareceu-me que, mais do que um quarto vazio, meu coração tinha um pedaço faltando! Muitas vezes de manhã ficava quietinha deitada na cama, achando que a qualquer momento iria ouvi-los andando pela casa e colocando em alto som músicas do Zé Geraldo.

Ainda sinto falta de quando todos estavam em casa, fazendo bagunça e a cada hora, uma turma de amigos entrando ou saindo. Mas por outro lado, ganhei cunhadas e sobrinhos que amo e que completam a felicidade da nossa família! E ver meus irmãos cuidando de seus próprios filhos com tanto amor, só faz com que meu orgulho e admiração aumentem mais.

Bem, meus irmãos mais velhos me “abandonaram”, mas tenho a caçula para me consolar. Apesar dos quase dez anos de diferença, ela se tornou minha melhor amiga. Passamos horas conversando sobre livros, seriados de televisão e sobre a vida. Saímos juntas e compartilhamos segredos, opiniões, roupas e perfumes. Incentivamos e tentamos realizar os sonhos uma da outra, como na vez em que a levei a um show de um monte de bandas coloridas só para ela poder ver o Fiuk, sua paixão adolescente do momento.

Sempre que há oportunidade de estar junto dos meus irmãos e irmã, aproveito. Pois qualquer que seja o tempo em que estou com eles, mesmo que seja breve como um almoço, uma carona ou um telefonema, é um tempo mais que especial.

Ter irmãos é assim. É ter amigos para qualquer hora, com os quais podemos contar em qualquer situação. Eles podem ser chatos, irritantes e até insuportáveis, mas como li em um dia desses, daríamos a vida por eles se assim fosse preciso. Falamos mal deles o quanto quisermos, mas ai de quem se atrever a concordar!

Temos o mesmo sangue, sobrenome, lembranças e levamos um pouco de nossos pais por onde andamos. E ficamos com aquela certeza de que fomos abençoados por nascer nesta e não naquela família.

E se você não tem um relacionamento tão maravilhoso assim com seus irmãos, se teve mágoas, crises e dores, tente perdoar. Os elos construídos ainda quando crianças terão força para renovar essa relação tão especial.

Texto meu também publicado no Blog Mais Viver Unimed Paulistana