Poesia

Praça da Sé

E SE todos esses que passam, tão apressados, parassem por um momento, e percebessem que pelo caminho não há apenas pedra, mas também um céu azul, à espera, de ser admirado? 

E SE esses que mostram a mão, ansiosos por saber o futuro, entendessem que são as ações de hoje, as escolhas de cada dia, que ditam o destino?

E SE esses que expressam o talento, tocam o sax, o violino, sol do meio-dia a pino, que regem a orquestra imaginária, recebessem atenção, fossem ouvidos?

E o que aconteceria SE cada um desses, tão distraídos, tirassem os olhos do chão, e ao olharem para o lado, enxergassem no outro um irmão? E SE vissem que mão estendida nem sempre clama por pão, mas que um olhar com respeito, empatia, também alimentam o coração?

E SE todos que ali na Catedral entram, alma angustiada, preces a fazer, saíssem com ainda mais fé, para seguir a jornada, saíssem com ainda mais esperança para desfrutar a vida?

E SE todos esses que perambulam sem direção, sem rumo, encontrassem portas que nunca se fecham e abraços que sempre acolhem, mesmo quando já se faz escuro?

E Se esses pombos estivessem aqui em sinal de paz, e SE esses que posam para fotos estivessem também sorrindo por dentro, e SE esses que sentam na escadaria não tivessem mais que esperar, e SE esses meninos de garrafa na mão fossem amparados, e SE…

*Foto: arquivo pessoal – fev/2019

Poesia

A conversa mais importante

O dia começa e antes que eu sinta o sol, sinto o peso de todos os compromissos que me esperam.

O dia segue nessa correria, e me acompanha a certeza de que o tempo nunca será o bastante para tudo que preciso ou quero fazer.

Então, mais um dia vai chegando ao fim. Enquanto aguardo o descanso, dou conta das poucas e apressadas palavras que trocamos ao longo do dia. Algumas delas foram até meio inconscientes, só por hábito.

Percebo, envergonhada, que já não sei quando foi a última vez que tivemos uma conversa de verdade.

Aquela conversa em que, tranquilamente, conto sobre meu dia, o que me fez sorrir, o que me entristeceu ou entristeceu a ti. Sobre as pessoas que fizeram parte desse dia, e como desejo que cuide delas.

Aquela conversa em que, sem reservas, eu falo sobre todas as coisas que estão aqui dentro: anseios, medos, preocupações, dúvidas. Sobre os sonhos, dos simples aos que insisto em chamar de impossíveis.

Como uma fonte, as palavras jorram, se atropelam, se bagunçam, mas sei que uma a uma são compreendidas. Até aquelas que não consegui dizer.

Ah, como é maravilhoso saber que a tudo isso, você ouve. Entre milhões de pessoas, no meio de tantas outras conversas, sei que nesse momento, você ouve a mim!

E então, com tanta graça e amor, responde. A voz mais doce e suave que conheço. A mais forte e poderosa que temo.

Me responde com exortações, promessas, testemunhos lidos da Sua Palavra. Às vezes, me responde trazendo à memória uma canção.

Há vezes também que parece nada responder, apenas há​ o silêncio aquecendo meu coração. Mas ainda assim, é um sussurro que fala ao mais profundo de mim, de uma forma que a voz mais alta jamais poderia.

Ah, como preciso de nossas conversas.

São nessas conversas que eu me aquieto. Que as ansiedades fogem. Que o medo desaparece. Que as preocupações se provam​ desnecessárias.

É quando eu lembro por onde já caminhamos. Pela presença nos momentos difíceis, aqueles que pensei que não suportaria. Pelas providências que tanto precisava e por muitas que nem imaginava. Pelas lágrimas enxugadas.

São nessas conversas que eu vejo um pouco mais além. Que olho para o que é eterno. Para as coisas que ainda virão. Pelas promessas que se cumprirão. Pela certeza de que haverá um tempo em que ao conversarmos, oh, Jesus, será face a face.

Ah, meu amigo. Me perdoe porque hoje eu escolhi tantas outras coisas, e não a melhor parte. Por ter procurado tantas pessoas para conversar, e não antes a Ti. Por ter demorado tanto a me sentar aos teus pés e te ouvir falar. Por ter demorado a inclinar minha cabeça em teu peito.

Ah, meu amigo Jesus, obrigada porque agora eu estou aqui. E Tu estás aqui. E esse é o momento de termos nossa conversa.

Poesia

Por causa do TUDO

E a gente vai dando conta, segurando as broncas, fingindo que não vê, que não ouve, respirando fundo, contando até 10, até 50, haja número, erguendo a cabeça,  engolindo o choro, dançando uma música barulhenta e sem ritmo, buscando algum sentido, correndo contra o tempo, perdendo o precioso tempo, ganhando culpa, não se dando ao trabalho de nenhuma desculpa, ignorando as palavras ditas (e malditas), relevando os olhares tortos, desviando da fúria, do ataque, aguentando a dor, o cansaço, a verdade, jogando um jogo com regras que ninguém entende, sem pausa, sem reprise, sem torcida. 

E apesar de tudo (ou por causa do TUDO que um dia virá), a gente não desiste e segue em frente, dando conta, segurando as broncas…